Mesquita: A paixão pelo futebol

Foi um avançado do Gil Vicente dos que jogava de dentes cerrados. Ainda hoje, aos 82 anos, é um adepto fervoroso, um quase fanático, que vive o futebol - meio século depois - como o vivia no tempo em que jogava.
Quando perdia atirava as chuteiras com violência, zangava-se, tal como hoje, se zanga em frente à televisão ou no estádio do seu clube de toda a vida, de quem continua fielmente sócio e espectador.
Assume que usava tudo para bater os corpulentos defesas-centrais na sua obsessão pelo golo. Não sabe quantos marcou na sua vida inteira de futebolista, mas lembra-se que numa só época marcou 35 golos. Usava ambos os pés e a cabeça da mesma forma exímia para os concretizar não se deixando ficar na área à espera das oportunidades. Quando ia marcar um penalti escolhia o pé com que ia chutar.
Movimentava-se no meio campo adversário à procura da bola, contrariando as ordens do seu treinador, apesar de ter 1,75 m, da fome por que passou e que lhe limitou a capacidade física no início da sua vida de atleta.
Começou a jogar futebol no largo da Estação, no paralelo, descalço, com uma bola de farrapos, outras vezes de borracha. Diz que já nessa altura se destacava dos outros pela sua habilidade.
Até que o Gil Vicente organizou um torneio popular e aquela malta formou o “Andorinhas”, para disputar o torneio com outras equipas de Barcelos: o “Barcelense”, o “Bonfim”, o “D. Nuno”, da rua Nova de S. Bento, a “Rua da Estrada”. “O Andorinhas” foi à final e Mesquita foi o melhor marcador do torneio, apesar de ser “fraquinho, comia mal…”.
O pai repreendia-o “não jogues à bola, não sabes que a tua mãe morreu tuberculosa!”. Também um irmão de Mesquita, com apenas 19 anos, morreu com a mesma doença. Tinha mais vício do que atenção pelas palavras do pai e continuava a jogar. Pedia ao pai para jogar.
Antes da final, o guarda-redes do “Andorinhas” magoou-se e não havia quem fosse à baliza. Baltazar Mesquita queria tudo menos perder e ofereceu-se para defender a baliza. No final do jogo, Hernâni, dirigente do Gil Vicente, tal como estava combinado, convidou os jogadores que se destacaram para jogar no clube, só que comunicou a Mesquita que era convidado como guarda-redes. Mesquita iniciou a sua carreira no Gil Vicente F. C. como terceiro guarda-redes.
O Gil Vicente jogava então na terceira divisão, mas subiu logo a seguir à segunda com uma equipa treinada pelo húngaro Joseph Szabo, um ex-jogador e treinador do Sporting C. P. e do F. C. Porto e onde jogavam excelentes jogadores, “uma autêntica seleção”, com capacidade para jogar na primeira divisão. Os conhecidos irmãos Mendonças faziam parte dessa equipa.
A sorte de Mesquita foi que “o plantel era escasso, não havia tantos jogadores como agora” e para treinar ia-se às bancadas convidar jogadores. Szabo pôs Mesquita a jogar e com o Fernando Mendonça, que ainda não tinha assinado pelo Gil, “partiam a defesa toda”. No final dos treinos Szabo ficava a treinar os guarda-redes, juntamente com Mesquita. O húngaro acabou por lhe dizer: “Oh menino, você tem mais jeito para jogador do que para guarda-redes”. Eduardo “espanhol” foi outro treinador que elogiava as qualidades de Mesquita.
No tempo de Szabo, o Gil era para subir de divisão e acabou por descer para a terceira. Os melhores jogadores, com melhores ordenados foram todos embora. Rafael tornou-se o novo treinador do Gil e Mesquita disse ao treinador que não ia para guarda-redes. Rafael concordou. Tornou-se ponta-de-lança.
“Eu era irrequieto, era um ponta-de-lança que não estava parado, desobedecia às ordens do treinador, vinha buscar a bola atrás. Ainda hoje me custa ver os avançados parados lá na frente à espera da bola!”
A carreira de jogador titular no Gil Vicente começou em 1958. Trabalhou na fábrica Fiação durante 6 anos. Tornou-se nos tempos seguintes o grande goleador da equipa.
O Gil Vicente foi ganhando notoriedade e estatuto. Começou a fazer melhores equipas. Chegaram os espanhóis Pablo, defesa central e Andrés, que fez dupla de pontas-de-lança com Mesquita. Dessas equipas faziam parte os barcelenses Canário, João e Adão Vieira, Serôdio, Teixeira, “Chispe”. Depois chegaram o Machado, também da estação, Lininho Sousa, Litos Relho, Silva, o guarda-redes. Era uma equipa de Barcelos, não havia dinheiro para ir buscar jogadores fora.
Mas ainda antes disso, um treinador (Passos, talvez) pô-lo a treinar mas avisou que Mesquita não tinha estrutura física para jogador, “era fraquinho”. Perguntaram-lhe como era a sua alimentação: “como mal e trabalho na Fiação”.
Trabalhava das 10 da noite às 6 da manhã. Treinava de tarde. Trabalhava de sábado para domingo e às 3 da tarde ia jogar. Ia jogar sem dormir, a alimentação era fraca. O médico José António Torres e os dirigentes do clube foram pedir aos patrões de Mesquita para o mudar para o turno da manhã e puseram-no a comer um mês na Bagoeira. Os resultados foram quase imediatos!
Em 1966 arranjou um contrato para ira trabalhar como estivador na Alemanha. O Sr. Henrique (Riquinho Teixeira) era, por aquela altura “o tesoureiro, o presidente, fazia de tudo”. Mesquita já tinha um currículo importante como jogador do Gil Vicente. Eduardo “espanhol” era o treinador e disse-lhe que tinha uma proposta do Tirsense, acabado de subir à primeira divisão, onde iria ganhar mais dinheiro. Só que na época os jogadores pertenciam aos clubes e não se podiam transferir livremente. O Gil já tinha impedido Mesquita de se transferir para o Vianense, que lhe tinha oferecido uma proposta de emprego.
António Falcão era, por aquela altura, o presidente do clube e Bártolo Paiva o vice-presidente. Falcão gabava-se de ter muito dinheiro para pagar aos jogadores “mas a verdade é que não mo dava”, conta Mesquita.
Acabou por responder ao treinador dizendo-lhe que ia para a Alemanha. Silva “farrapa”, que fazia parte da direção do Gil, ainda o aliciou com 20 contos para ficar.
Jogou por essa altura pela primeira vez no relvado do “Estádio 28 de Maio”, em Braga. “Não imagina a diferença”. No pelado do Adelino Ribeiro Novo, onde jogavam e treinavam era muito difícil jogar, a bola batia no chão e saltava para todo o lado. As bolas, quando chovia, ficavam no dobro. As botas no início ainda eram de travessas. “Treinávamos às quartas-feiras e no final do treino, o sapateiro levava-as para arranjar. Eram três horas de domingo e ainda estávamos à espera delas para jogar!”
“Uma vez aconteceu-me uma coisa! Aquecíamos dentro do balneário em meias. Quando ia a calçar as botas uma não me entrava e eu nem queria acreditar, quando a voltei a tirar tinha um sapo lá dentro, a bota, a meia toda molhada! Quando marquei um golo todos se riam e falavam do sapo. As camisolas rotas, as meias rotas, era uma tristeza!”
As histórias sucedem-se, não vale a pena interromper a narrativa do ex-jogador.
“Acabei por ir para a Alemanha. Fui ainda solteiro e estive lá cerca de quatro meses. No inverno havia pouco trabalho e nós ganhávamos apenas 20 marcos sem trabalhar em vez de 70, quando tínhamos trabalho. Não era quase nada. O encarregado brasileiro deu a possibilidade a quem quisesse de vir embora com a viagem paga, uma vez que não havia trabalho. E eu vim.
Regressei e casei-me. Estava desempregado. No ano a seguir, tive os meus dois filhos gémeos. Ainda eles eram pequenos, voltei à Alemanha para trabalhar numa fábrica, com outros conhecidos de Barcelos, mas tive problemas com o encarregado turco e resolvi vir embora.
Sabia que o Gil queria subir à segunda divisão e estava interessado que eu viesse jogar. Vim de férias e fiquei. Tinha saudades dos meus filhos, tinham um ano e meio…”
No Gil Vicente, era Bártolo Paiva o presidente, Coimbra treinador-jogador. Veio também o Lua, que depois também treinou, e outros jogadores
“A Direção do Gil mandou-me chamar e convidaram-me para jogar. Respondi-lhes que não tinha trabalho e teria de voltar à Alemanha. Bártolo Paiva disse-me que me arranjava emprego na Chenop (Companhia Hidroelétrica do Norte, antecessora da EDP), um horário de segunda a sábado, 40$00 por dia. Era um trabalho duro, enterrar cabos de pá e pica, mas depois fiz tarefas mais leves, acabei como cobrador. Dispensavam-me do trabalho às três da tarde para ir treinar.
Nessa altura já tinha trinta anos. Tinha jogado muitos anos na regional e na terceira divisão. Subimos à segunda. Rui Oliveira era diretor do Gil Vicente, nessa altura.
No final dessa época já não precisávamos dos pontos e o treinador Coimbra organizou um piquenique na Franqueira com todos os jogadores e da Direção convidou apenas Rui Oliveira e Henrique Teixeira, não gostava de Bártolo Paiva…
Na segunda-feira, Bártolo Paiva pôs-me de castigo, na Chenop, uma semana sem me pagar o ordenado. Também não exigi esse dinheiro ao clube. O “Riquinho” andava sempre a tremer para pagar aos jogadores. A partir daí, o presidente nunca mais me gramou.
Ainda fui com mais 6 ou 7 jogadores daqui e o treinador Rafael fazer um ano no Esposende.
Aos 34 anos pedi a minha festa de homenagem. Veio cá o Braga. Foi em 1973. Ainda tenho um bilhete do peão em casa, custava 10$00…
Ainda treinei os juniores do Gil durante um ano, mas depois a minha mulher convenceu-me a abandonar o futebol porque se queixava que não passava um domingo com ela. Nunca me ia ver jogar, tinha medo que me magoasse. Nunca tive uma fratura, só entorses…
Deixei de jogar e tornei-me sócio, até hoje. Olhe lá os anos que já lá vão! Fiz o meu neto sócio desde novo, já tem 21 anos e continuo a pagar-lhe a cadeira e as quotas.
Cheguei a jogar com o “Russo”, tinha jogadas combinadas com ele. Ele punha a bola onde eu queria e lhe pedia, tinha uns pés excelentes…”
“Russo” é o senhor que se segue, o jogador que se segue, nesta sequência de entrevistas a antigas glórias do Gil Vicente, se possível também algumas atuais...
“Comecei a jogar tarde, mas nasci cedo de mais para o futebol. Numa época em que não havia comunicação social, não havia o protagonismo que o futebol tem agora!”
“O meu pai bem me dizia para eu não jogar à bola…”

Mário Costa

Comentários

  1. li com muita atenção o comentário sobre o Mesquita,e com sou oriundo , do largo da estação e da mesma idade, acompanhei todo o percurso do Baltazar, não só como jogador, mas também com colega de infância, pois também, muitas vezes jogamos a bola no largo da estação pelo que corroboro com tudo que está escrito e aproveito para lhe enviar um abraço

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